Rodrigo Santiago

O aborto e a anencefalia do feto

Publicado em Atualidades, Bem-estar por Rodrigo Santiago em 19/09/2008

Acompanhando o debate na Suprema Cor… desculpem, país errado, no Supremo Tribunal Federal sobre o aborto em caso de anencefalia do feto (DO FETO!), ouvindo os vários “especialistas” (depois de religiosos sendo chamados de especialistas e de parlamentares tendo rezado o Pai-nosso no Congresso, realmente não me convenço de que vivemos num país laico), pensei o seguinte:

Até onde eu sei, os religiosos, independente de religião, condenam qualquer tipo de aborto, inclusive em gravidez decorrente de estupro, permitido pela legislação. Portanto, apesar de não concordar com sua visão, há coerência deles no debate, já que são contra a regulamentação do aborto em caso de anencefalia do feto. Porém, a legislação (o Código Penal) permite o aborto em dois casos: a) no já citado caso de estupro; b) se necessário para preservação da vida da gestante:

Art. 128 – Não se pune o aborto praticado por médico:

I – se não há outro meio de salvar a vida da gestante;

II – se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal.

O que me intriga nisso tudo é que, em caso de estupro, as condições do feto não são levadas em questão, mas, sim, a vontade da gestante. Logo, a meu entender, no inciso II é levado em conta a “saúde mental”, digamos, da gestante, de não ser obrigada a conviver com algo que surgiu de tanta dor e bla bla bla.

Já no caso de anencefalia do feto, de acordo com a maioria dos médicos, a criança não passa muito tempo viva, ou seja, é certeza de morte. Logo, acho que deveria ser natural que em uma legislação que permite o aborto de um feto saudável, desde que o meio tenha sido o estupro, permitisse o aborto de um feto que não conseguirá sobreviver ao nascimento, ou ao menos não durante muitos anos de vida, para preservar a integridade mental da mulher.

Não imagino como deva ser a dor de uma mulher carregar no ventre por nove meses um feto que já sabe que vai morrer. Eu logo penso em situações corriqueiras, as pessoas perguntando quando nasce, se já tem nome, se é menino ou menina, e como tudo isso fica na cabeça da mulher.

E, caso seja regulamentado, vai ser um opcional, e não uma regra. Se houver alguma mulher que não queira fazer o aborto, que mesmo sabendo que seu feto tem anencefalia quer levar a gravidez adiante, ela nada precisará fazer. A regulamenteção virá para dar uma opção à mulher, e não para criar uma regra.

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Caso do banner meio-milionário na grande mídia

Publicado em Atualidades por Rodrigo Santiago em 21/07/2008

Sabe o caso do banner mais caro da internet? Pois é, na ISTOÉ Brasil desta semana saiu uma reportagem sobre o senador Efraim Morais, do Democratas (ex-PFL), e suas artimanhas dentro do Senado. Entre elas, a tentativa da criação dos 97 cargos para o senado e o caso do banner:

Desde maio de 2008, o Senado estampa no canto superior direito do portal de notícias www.paraiba.com.br um minúsculo banner publicitário com um link direto para a página da Casa. Segundo apurou ISTOÉ, o contrato, de 12 meses de duração, foi firmado sem licitação a um custo de R$ 48 mil mensais. A empresa responsável pelo site é a Paraíba Internet Graphics, a mesma que cuida do site pessoal do senador. Procurado, Efraim não foi encontrado para dar uma explicação sobre a coincidência.

Estranhamente, na quinta-feira 17, um dia depois de ISTOÉ procurar o gabinete do senador, houve uma sutil mudança no texto do edital do contrato do Senado com a Paraíba Internet Graphics, publicado na internet. Até então, o texto informava que se tratava de um contrato de 12 meses com parcelas de R$ 48 mil. Ou seja, o valor anual seria superior a R$ 500 mil. Na manhã da quintafeira 17, estava inserida no texto, abaixo do valor de R$ 48 mil, a palavra “anuais”.

Será que a revista tomou conhecimento do caso através de algum internauta?

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Israel e Hezbollah trocam figurinhas

Publicado em Atualidades por Rodrigo Santiago em 16/07/2008

Israel confirmou que os restos mortais entregues pelo grupo islâmico libanês Hezbollah como parte de um troca de prisioneiros são de dois de seus soldados. [...] Em troca, Israel está entregando cinco militantes do grupo islâmico que estavam sendo mantidos como prisioneiros e os despojos de 200 combatentes libaneses e palestinos. (daqui)

Tá, tipo assim, resumidamente, um diálogo entre eles:

— Vamos trocar prisioneiros? O que vocês têm aí?
— Nós temos dois soldados israelenses…
— E nós cinco prisioneiros, “guerrilheiros” do Hezbollah por aqui.
— Ah, então vamos trocar.
— Beleza, tamo dentro.
— Só tem um probleminha… os soldados estão mortos.
— …

Que porra é essa? Tudo bem que os israelenses querem fazer o enterro dos corpos dos soldados, dar sossego para as famílias e et cetera e tal, e que deram também despojos de duzentos terroristas. Mas mesmo assim, trocar dois soldados mortos por cinco terroristas vivos?

Não ficaria surpreso se os israelenses tivessem devolvidos cinco caixões…

A maledeta campanha da maledeta geladeira

Publicado em Atualidades, Geeknópolis por Rodrigo Santiago em 05/07/2008

Fiquei sabendo através do Fred, do quem matou a tangerina?, sobre a campanha da geladeirinha. Bom, depois da postagem do Blue Bus, choveram opiniões a respeito. Uns chamando para resolver o assunto na hora da saída, outros choramingando porque receberam a alcunha de “blogs de aluguel”, and so on.

Dentre o que li sobre o assunto, dois posts me pareceram os mais sensatos. Este aqui, do Andre Dahmer, e este, do Cassano. Até pensei em falar sobre o assunto, mas é um negócio muito chato, todo mundo já falou a respeito, mas o principal motivo é que estes dois já disseram muito do que penso a respeito.

Reservo-me a comentar apenas que um blog reflete a opinião do autor. Logo, se ele publica algum produto que ultrapassa os limites da sua opinião, apenas porque foi pago ou recebeu um presente, quem corre o risco de perder leitores ou de ferir sua credibilidade é ele, passando a impressão de — utilizando uma expressão já gasta — mercenário. Não acho que os blogs devam ser apenas mais um meio propagador de publicidade. Caso contrário, daqui um tempo, os blogs serão mais uma celebridade fazendo propaganda de um shampoo que custa pouco mais de cinco reais e que todo mundo sabe que ela não usa.

O mais curioso é que a estratégia ganhou mais repercussão do que o produto. Ponto para a agência responsável.

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O gosto pelo sensacionalismo

Publicado em A vida, o universo e tudo mais, Atualidades por Rodrigo Santiago em 29/04/2008

Assistindo nos telejornais a repercussão do caso Isabella Nardoni, tenho visto o despudor da população na ávida busca por informações. Muitas pessoas protagonizam cenas patéticas, como o caso do senhor que levou sua família para um “belo” programa de domingo: assistir à reconstituição do crime.

Filmes como “Faces da morte”, vídeos de assassinatos, suicídios e acidentes multiplicando-se pela internet, curiosos em volta de um acidente automobilístico — quanto mais grave o acidente, maior é o número de curiosos — são exemplos de como esse desejo é presente na sociedade contemporânea. Mas este sentimento não é novo para a humanidade.

As execuções públicas tinham a função de “educar” a população a não cometer crimes e eram assistidas por praticamente toda comunidade. E ninguém era obrigado a isso.

Sem falar quando a morte era motivo de entretenimento:

Coliseu

Minha pergunta: é natural do ser humano o anseio por imagens tão impactantes? E por que isto sempre esteve tão inerente ao ser humano no decorrer destes milênios? Segundo as teorias psicanalíticas, não temos controle sobre esse desejo. A psicanálise pode até explicar como acontece o processo do interesse por estes assuntos, mas não explica a origem. Se Freud tinha razão, eu não sei, mas é curioso observar a batalha entre o superego e o id — o consciente-repressor e o inconsciente — no que tange os assuntos sensacionalistas. Acredito que muitos já presenciaram cenas de pessoas horrorizadas com a cena de algum acidente, mas mesmo assim não deixavam de assistí-lo inúmeras vezes.

Mas por que diabos esse desejo habita o inconsciente?

“Cada um na sua, mas com nada em comum”

Publicado em Atualidades, Bem-estar, História por Rodrigo Santiago em 16/04/2008

A frase do título foi dita por mim em uma conversa com uma amiga, que está na faixa dos vinte anos de idade, e é uma clara alusão ao famoso slogan “cada um na sua, mas com alguma coisa em comum” das propagandas do cigarro Free. Foi um slogan muito perpetuado entre as pessoas na década de noventa, e até início do ano dois mil. Minha amiga não entendeu a alusão, pois não se lembrava de tais propagandas. Isso me fez pensar que a geração próxima ou abaixo de um quarto de século não teve ciência, por completo, do período de banimento do cigarro dos meios publicitários. Ou pegou o bonde andando ou já com ele no ponto final. Em um intervalo de menos de dez anos o cigarro foi de total liberdade até o completo banimento; televisão, patrocínios a eventos ou mesmo a esportistas, tudo proibido.

Assistindo às propagandas percebia-se claramente o público-alvo dos produtos, seja analisando as imagens, a temática ou a trilha sonora, entre outros elementos. O cigarro Hollywood, por exemplo, era voltado a uma juventude inquieta, ligada aos esportes radicais, ao rock’n roll e com sede de viver. O Free, ao jovem buscando firmar sua independência e individualidade, culto e refinado. O Marlboro voltado ao público masculino, mostrando a combinação de poder, virilidade e liberdade. O Carlton já era voltado a um público mais refinado e adulto. A lista segue longa. Nem é preciso conferir os números para saber que as companhias de cigarro faturavam faturam muito, pois tais marcas tinham uma excelente assessoria de marketing — e isso custava custa bastante. Com tantos recursos, não foi por acaso que estas peças publicitárias eram uma das melhores produzidas, e tornaram-se célebres, seja o cowboy da Marlboro, seja o sandboard nas dunas da Namíbia de Hollywood.

Na época estes comerciais nada mais eram do que comerciais muito bem feitos. Mas quem teve oportunidade de assisti-los no intervalo de um filme ou de uma novela, e contrasta com o presente, acaba sendo possuído por um certo saudosismo. Acredito que isso se dá com qualquer tipo de um comercial que marca uma época — “não esqueça da minha Caloi”. Muita gente hoje solta um ou outro bordão, ou faz alguma referência proveniente dos comerciais de cigarro. Tudo bem, isto pode ser levado até a outros produtos: daqui a dez anos o bordão “quer pagar quanto?” nada vai significar para uma pessoa de vinte anos de idade, além do sentido literal de frase. Mas me refiro especialmente às propagandas de cigarros pois nestes comerciais os publicitários buscavam causar mais impacto, criando um imaginário e ambientes alheios ao produto anunciado, vendendo a idéia de que o cigarro poderia proporcionar a sensação vivida no comercial. Criaram, também, vários slogans de efeito, que, isolados, não tem relação alguma com o produto, mas alguns deles transformaram-se em quase um sinônimo da marca anunciada:

  • “Alguns homens fazem o que outros apenas sonham”, Marlboro;
  • “Existe um lugar onde o homem é dono do seu próprio destino”, Marlboro;
  • “Me ame ou me odeie. Mais ou menos é que incomoda. Cada um na sua”, Free.

Abaixo, uma série de frases de uma campanha publicitária do cigarro Free, veiculada em impressos, voltadas ao jovem, enfatizando a atitude — reparem nas idades entre vírgulas :

  • “Adriana Recki, 27 anos, agitadora cultural: Eu sou um animal absolutamente emocional”;
  • “Mega-OM, 26 anos, multimídia: Eu sou a minha própria invenção”;
  • “Lara Pinheiro, coreógrafa: A melhor parte da minha vida é o improviso”;
  • “Carolina Overmeer, 27 anos, diretora de arte: Ninguém muda nada se não acreditar que pode”;
  • “Daniel Zanardi, 27 anos, artista plástico: Não quero passar pela vida sem um arranhão. Quero deixar minha marca”.

Abaixo há uma propaganda veiculada pelo Free, que exemplifica muito bem a questão.

E logo mais um vídeo com um comercial de Hollywood dos anos oitenta.

Aqui o protagonista é um carro de corrida extremo, e aqui é um grupo de jovens descendo uma montanha nevada com snow mobiles.

Referências e mais informações

Alguns links para vídeos e propagandas de cigarros

Artigo com um breve histórico das campanhas publicitárias de cigarros

A indústria do cigarro e a publicidade

MP3, liberdade da informação e arte interativa

Publicado em Atualidades, Geeknópolis por Rodrigo Santiago em 10/04/2008

Da série “Textos que comecei a escrever há alguns meses mas só agora tive saco para terminar”.

Li no blog de Gilberto Jr. um post em que ele comenta o sucesso do filme “Tropa de elite”, e como a pirataria ajudou nesse sucesso. Não sei se o filme teve comerciais com o trailer dele na televisão, como a maioria dos filmes, mas, pelo acompanhei, não precisava. A pirataria foi a melhor forma de divulgação que o filme poderia ter tido, pois, além de colocar o filme na “boca do povo”, levou-o a ser notícia em muitos meios de comunicação, possibilitanto a muitas pessoas conhecerem o filme.

Acho fantástica a interatividade e a cooperatividade que a Internet proporciona. Mas esta é uma questão complicada. Se por um lado sou a favor da liberdade da informação, por outro lado há pessoas que abdicam de um trabalho formal e dedicam esforço, tempo e, alguns, dinheiro em cima de um projeto com a finalidade de ter uma renda em cima daquilo, e, no final, esse trabalho acaba sendo distribuído livremente… nunca soube de alguém que tenha falido por causa da pirataria, no entanto, não é justificativa. Alguns praticam a pirataria como filosofia: é a liberdade da informação — neste caso o termo “pirataria” soa pejorativo —, mas a maioria a pratica calcada na Lei de Gérson. Talvez isso seduza as pessoas, sei lá. Por outro lado, a pirataria acaba se tornando um meio de divulgação do trabalho de um artista. Usando um exemplo pessoal, foi o que aconteceu comigo e a banda Morphine, em 2003. Após baixar algumas músicas, resolvi comprar todos os álbuns da banda. Além disso, quando meu carro foi arrombado, levaram-me um dos CDs da banda. Comprei-o novamente.

Mas não dá para discutir liberdade de informação sem discutir o próprio conceito de propriedade, e o que esse conceito engloba. Discutindo-se isso pode-se definir o que é pirataria e o que é informação livremente distribuída. Essa discussão toda ocorre porque nosso modelo econômico não suporta algo do tipo “ter” sem pagar. É, até certo ponto, um anacronismo dentro do capitalismo, pois é um modelo centrado — em linhas gerais, ressalvadas as especificidades — na propriedade privada e no capital. Mas quando o conceito de propriedade chega a itens imateriais, como definir o que é propriedade? Quando se compra um CD de música está se pagando pela mídia ou pelo conteúdo dela? As ondas sonoras contidas naquele material podem ser consideradas propriedade de alguém? Ou é a manipulação das ondas sonoras que são propriedade? Ou, ainda, paga-se pelo trabalho que aquele artista teve em manipular o som da maneira que fez, ou seja, a mão de obra? Se assim for, quando se copia a música sem pagar, não se está infringindo muito mais as leis trabalhistas do que qualquer outro dispositivo de afronta à propriedade?

Claro que, para fins didáticos, ignorei propositadamente o conceito de propriedade intelectual, algo que parece ser natural — se fulano teve a idéia, ela é dele. Mas, se for se pensar a fundo, o termo “idéia”, ou a elaboração de uma idéia, é algo passível de ser posse de alguém?

O fenômeno das músicas no formato mp3 e músicas online não significa apenas que achamos o CD caro demais, mas, também, demonstra que estamos nos cansando do formato atual de distribuição. Não é à toa que a iTunes Store faz tanto sucesso. Em 1999 a banda Public Enemycaso do disponibilizou um álbum para venda online, e acredito que a tendência seja essa, com exemplos cada vez mais “vanguardistas”, como o Radiohead, em 2007. O músico Beck foi outro que procurou inovar neste sentido, lançando o álbum semi-interativo The information. A começar pela capa, que vem em branco e, com os adesivos que acompanham o CD, cada ouvinte pode fazer a sua própria art cover. Na página de vendas do álbum no site da Amazon há disponíveis várias art covers, feitas por quem o comprou — a loja criou um espaço especialmente para isto. Achei a idéia da montagem da capa fantástica, pois cada capa conterá, consciente ou inconscientemente, reflexos de como a música afetou cada ouvinte, logo, não haverá dois álbuns com a mesma arte na capa. E, no que toca às músicas, segundo um artigo do portal G1, elas foram gravadas de uma maneira que permite ao ouvinte remixá-las — desde que tenha conhecimento em softwares de edição de som, lógico — como ocorreu com as do álbum anterior a esse, Guero. Segundo o mesmo artigo, o próprio Beck incentiva estes remixes por parte dos ouvintes.

O cinema é uma arte que pode comportar muito bem esta tendência. Com os hardwares de computador cada vez mais acessíveis, quem sabe num futuro próximo o espectador possa remontar o filme, editá-lo da maneira que achar melhor. Esta tendência de interatividade do público com a arte não é recente. Se não me engano, é uma tendência que surge com a arte pós-moderna, na década de sessenta. Na época do lançamento do filme “A idade da terra”, em 1980, Glauber Rocha dizia que seu filme poderia ser exibido com os rolos projetados em ordem aleatória (cada rolo de filme tem uma duração de cerca de quinze minutos), e ainda assim o filme faria sentido. O que é isto senão uma remontagem do filme? A idéia pode não ser atual, mas hoje está muito mais próxima do apreciador consumidor de arte. No caso do cinema, a remontagem, hoje, já pode ser feita por qualquer pessoa que tenha um computador com um hardware mínimo e o DVD do filme. Ou seja, recurso técnico já há.

Nesse sentido a liberdade de informação e a interatividade na arte andam de mãos dadas, pois quanto mais a informação for livre, maior será a possibilidade de interatividade com o público, transformando a obra de arte, que deixará de ser expressão individual para ser expressão coletiva. A grosso modo, é a arte open source. :-P

Pesquisas com animais proibidas em Florianópolis

Publicado em Atualidades, Bem-estar por Rodrigo Santiago em 08/12/2007

Foi aprovado pela câmara de vereadores de Florianópolis um projeto de lei que proíbe pesquisas com animais no município. A iniciativa foi do vereador Deglaber Goulart, do PMDB, e, segundo o jornal Diário Catarinense, a medida entrará em vigor pois o prefeito que era-de-São-José-e-agora-é-de-Florianópolis Dário Berger, que tinha 15 dias para ou sancionar ou vetar a lei, não se manifestou, e, desta maneira, a lei foi automaticamente sancionada.

É lamentável que isto ocorra hoje em dia. Na minha opinião é um retrocesso gigantesco. O que me dá mais raiva são pessoas que entendem bulhufas de ciência experimental dando pitaco na questão. Uma professora do doutorado de Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina diz que

os protetores dos animais não pregam o fim da pesquisa científica sobre a saúde humana, mas o fim do uso de animais como objeto destas pesquisas. (Diário Catarinense).

Mas e aí, como é que faz isso? Será que eles preferem que os testes sejam realizados em seres humanos?

Questionado sobre se os cientistas da cidade poderiam continuar fazendo pesquisas com animais como moscas-de-fruta e vermes, ele disse que “acredita que sim”. “Não falo nada especificamente sobre moscas, estou falando de animais grandes”, afirmou. (Portal G1) . [grifo meu].

Jesus amado, ele tem a iniciativa do projeto de lei mas nem sabe ao certo sobre a quais animais ela se aplica? Eu hein!

Para o vereador, é possível dispensar o uso de animais em pesquisas. “Estamos no século XXI, já fomos e voltamos da Lua umas dez vezes [foram seis]. Isso é coisa da Idade Média”, afirma. (Portal G1). [grifo meu].

Pode ser implicância minha, mas um cidadão desta estirpe não está nem um pouco interessado em ciência. Primeiro porque fala da boca para fora, sem ter certeza de suas afirmações, segundo, faz uma relação estúpida, comparando a evolução da ciência com as idas à Lua. O que diabos tem uma coisa a ver com a outra!? Bom, vamos deixar de usar óculos, já que foram inventados na Idade Média, vamos queimar todos os livros, pois o formato de livro que conhecemos hoje foi desenvolvido na Idade Média. Como é que um cidadão desse naipe, que em poucas linhas consegue dizer tantas bobagens, consegue se eleger e aprovar projetos de lei?

O grande equívoco é que os desocupados de plantão colocam cientistas sérios, com anos de carreira, no mesmo patamar de Zé Rolhas que torturam animais pelo simples prazer.

Mello [Luiz Eugênio Mello, presidente da Federação de Sociedades de Biologia Experimental] afirma que nenhum pesquisador sente “prazer” em fazer testes em animais, mas que as alternativas são piores. “Se não pudermos testar os remédios em animais, vamos ter que testar em gente. E remédio não surge pronto. Eles têm uma série de efeitos colaterais e podem matar”. (Portal G1).

Sou completamente a favor de direitos “humanos” aos animais. Não teria cojones para realizar pesquisas com animais, mas sei que elas, por enquanto, são importantes. Já estive em um frigorífico onde eram feitos produtos derivados de porco, e no setor onde eles eram abatidos o negócio foi medonho: nunca tinha ouvido um animal — vários animais, na verdade — gritarem daquele jeito. Eles estavam relativamente longe do local de abate, mas já sabiam da morte certa, imagina o estresse.

Os “do contra” argumentam que há alternativas às pesquisas com animais mais eficientes, mais baratas e que levam menos tempo. Certo, então a indústria farmacêutica, os centros de pesquisa, as universidades são apenas sádicos cruéis que adoram perder dinheiro torturando animais. Corta essa, PETA, parem de falar disparates, ninguém gosta de jogar dinheiro fora.

Effective, affordable, and humane research methods include studies of human populations, volunteers, and patients [...]

Traduzindo: “Métodos eficientes, baratos e de pesquisa humana incluem estudo de populações humanas, voluntários e pacientes [...]“. É sério isso? Agora pergunta para eles se eles querem ser voluntários. Cut the crap!

Minha esperança é que seja aprovado um projeto de lei que regula o uso de cobaias em pesquisas, e, sendo uma lei federal, tornaria irrelevantes estas leis municipais absurdas e fruto de oportunistas de meia tijela.

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O fim do papel?

Publicado em Atualidades por Rodrigo Santiago em 26/10/2007

Discussão velha, mas que sempre vai reaparecer. Sinceramente, acho que é perda de tempo discutir se o papel será substituído pelo computador, pois não será a discussão que ocasionará nesta substituição ou não. Perda de tempo ainda maior é discutir se é melhor ler no computador ou em papel. Cada um tem sua opinião, e o máximo que se pode fazer é cada um expor a sua e pronto, mais do que isso é desnecessário, pode vir a gerar atritos e opiniões inflamadas. É questão de preferência e ponto final. Se o meio “informático” substituir o papel, isso acontecerá independente do que é e do que será discutido, já que vai ser uma substituição gradual e, provavelmente, imperceptível.

Agora, discutir se vale a pena publicar em papel — livro, jornal, etc. — já são outros quinhentos. Acho uma discussão válida, pois traz outros elementos ao debate, como distribuição, preço, e, também, preferência pessoal — sim, ela sempre vai estar presente. Pessoalmente, não gosto de ler textos longos diretamente no monitor. Caso encontre algo interessante, mas longo, dou um jeito de imprimir para ler em papel. Não é birra, apenas não acho confortável ler no monitor.

Entrando num ponto de vista histórico-surreal, será que houve essa polêmica quando o papiro começou a ser utilizado? Imagino essa discussão ocorrendo no Antigo Egito, sobre a substituição das placas de argila pelo papiro:
— Essa coisa aí rasga, pega fogo. Já viu isso acontecer com argila?
— É, mas se ela cair, quebra. Papiro é maleável, leve e mais fácil de escrever.
— Mas de que adianta? Só os mais favorecidos têm acesso.

Da mesma forma, quando foi inventada a prensa móvel, será que aconteceram muitas greves por parte do “sindicato dos copistas“?

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Anonimato na Internet

Publicado em Atualidades, Geeknópolis por Rodrigo Santiago em 19/09/2007

Lendo os comentários dos jogos no site da Copa de Literatura Brasileira me deparei com um dos lados obscuros da Internet, um de seus lados mais patéticos. Aliás, pessoas patéticas, digo, que se escondem atrás do anonimato e de pseudônimos — uma maneira romântica de anonimato — para exporem suas opiniões. É uma tremenda falta de coragem se esconder atrás deste tipo de coisa. Engraçado que em comentários seguidos aconteceram duas coisas que podem ser incluídas no meu ranking “coisas patéticas que presenciei na Internet”.

A primeira foi o comentário de alguém utilizando um pseudônimo que “pertence” a outra pessoa — covardia em dobro não vale: “Você tem tanta coragem quanto uma barata ao usar um pseudônimo“. Oh boy! Duas colheres de covardia e uma de incoerência. As pessoas precisam cair na real e se dar conta de que a Internet não é brincadeirinha, onde tudo pode. Pessoas deste tipo parecem que a descobriram ontem e estão deslumbradinhas.

A segunda foi pior, por incrível que pareça. Uma pessoa deixou o seguinte comentário:

[...] nesse espaço de rede tem de tudo e acho ótimo essa liberdade de ser quem se quer ser, já que o fingimento é a convenção aceita por aqui. Quem quer assumir identidade verdadeira cria um site e põe o retrato nele, não é mesmo? Experimentei aqui pela primeira vez um nick masculino, quis falar [...] de “homem pra homem”, mas acho que continuo falando como mulher (que sou), é engraçado, mas o nick de homem soou meio falso pra mim. [...]

Como assim liberdade de ser quem quiser ser? As pessoas estão mais fucked ups do que pensei. Não é porque se está na Internet que não se é… você! Não adianta trocar um nome, não adianta tentar se passar por outra pessoa pois aquela pessoa na frente do teclado vai continuar a mesma — a não ser que tenha sérios distúrbios de personalidade — sem conseguir enxergar qualquer discussão sob outro ponto de vista. Até porque, escondendo-se sob esse anonimato, mostra-se uma pessoa tão limitada que não teria capacidade de enxergar qualquer coisa além do próprio umbigo.

Nessas horas que pergunto: que convicção uma pessoa que se “anonimiza” tem naquilo que escreve se nem a porcaria do nome assina? Aí elas retrucam com aquele velho discursinho da imprensa quando quer falar qualquer abobrinha: “liberdade de expressão”. É verdade, a Constituição Federal, no seu artigo 5º, incisos IV e V, assegura a liberdade de expressão e o direito de resposta, da seguinte maneira:

IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; [grifos meus]

Ou seja: fale o que quiser, mas agüente as conseqüências. E, completando, quem não se identifica é covarde sim, a ponto de querer se esquivar de possíveis conseqüências. As pessoas têm a ilusão de que o anonimato na Internet é eficaz. Mal sabem que o número IP é perfeitamente rastreável, desde que se tenha os instrumentos corretos, tanto técnicos quanto jurídicos. Se nós, reles mortais, com um simples sistema de estatísticas conseguimos saber até a cidade de determinado número IP, imagine um especialista em segurança de redes!

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