Rodrigo Santiago

O aborto e a anencefalia do feto

Publicado em Atualidades, Bem-estar por Rodrigo Santiago em 19/09/2008

Acompanhando o debate na Suprema Cor… desculpem, país errado, no Supremo Tribunal Federal sobre o aborto em caso de anencefalia do feto (DO FETO!), ouvindo os vários “especialistas” (depois de religiosos sendo chamados de especialistas e de parlamentares tendo rezado o Pai-nosso no Congresso, realmente não me convenço de que vivemos num país laico), pensei o seguinte:

Até onde eu sei, os religiosos, independente de religião, condenam qualquer tipo de aborto, inclusive em gravidez decorrente de estupro, permitido pela legislação. Portanto, apesar de não concordar com sua visão, há coerência deles no debate, já que são contra a regulamentação do aborto em caso de anencefalia do feto. Porém, a legislação (o Código Penal) permite o aborto em dois casos: a) no já citado caso de estupro; b) se necessário para preservação da vida da gestante:

Art. 128 – Não se pune o aborto praticado por médico:

I – se não há outro meio de salvar a vida da gestante;

II – se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal.

O que me intriga nisso tudo é que, em caso de estupro, as condições do feto não são levadas em questão, mas, sim, a vontade da gestante. Logo, a meu entender, no inciso II é levado em conta a “saúde mental”, digamos, da gestante, de não ser obrigada a conviver com algo que surgiu de tanta dor e bla bla bla.

Já no caso de anencefalia do feto, de acordo com a maioria dos médicos, a criança não passa muito tempo viva, ou seja, é certeza de morte. Logo, acho que deveria ser natural que em uma legislação que permite o aborto de um feto saudável, desde que o meio tenha sido o estupro, permitisse o aborto de um feto que não conseguirá sobreviver ao nascimento, ou ao menos não durante muitos anos de vida, para preservar a integridade mental da mulher.

Não imagino como deva ser a dor de uma mulher carregar no ventre por nove meses um feto que já sabe que vai morrer. Eu logo penso em situações corriqueiras, as pessoas perguntando quando nasce, se já tem nome, se é menino ou menina, e como tudo isso fica na cabeça da mulher.

E, caso seja regulamentado, vai ser um opcional, e não uma regra. Se houver alguma mulher que não queira fazer o aborto, que mesmo sabendo que seu feto tem anencefalia quer levar a gravidez adiante, ela nada precisará fazer. A regulamenteção virá para dar uma opção à mulher, e não para criar uma regra.

Etiquetado como:, , ,

O cigarro e os eventos

Publicado em Bem-estar, História por Rodrigo Santiago em 08/08/2008

Quando escrevi sobre a relação das propagandas em televisão dos cigarros e seu público alvo, tinha pensado também sobre o marketing da indústria tabagista em eventos e competições esportivas, mas ficaria muita coisa para um post só, e resolvi deixar para depois.

Bom, seguindo a lógica dos comerciais de televisão, quando o marketing era feito patrocinando algum evento, o evento era voltado ao mesmo público-alvo, lógico. É o caso do Hollywood Rock, do Free Jazz Festival e do Carlton Dance Festival, voltados, respectivamente, para o jovem ativo, o jovem independente e o adulto refinado.

Se no meio cultural o cigarro era bastante presente, e cada marca voltada ao seu público alvo, no esporte não era diferente. Cada marca privilegiava o esporte que melhor atendia ao seu apelo. Citando novamente o Hollywood, ele era freqüentemente patrocinador de esportes radicais, os mesmos veiculados em seus comerciais. O cigarro Marlboro foi patrocinador por muito tempo no automobilismo, esporte associado à virilidade.

E, mais uma vez, o marketing visava criar um imaginário alheio ao produto, associando cada marca com o evento ou com o produto do evento. Quem não lembra da McLaren vermelha e branca de Ayrton Senna? Ou do carrinho amarelo da Camel?

Etiquetado como:,

16 por 10

Publicado em A vida, o universo e tudo mais, Bem-estar por Rodrigo Santiago em 21/06/2008

Dia desses medi minha pressão sanguínea arterial e levei um susto: 16 por 10 (ou 160-e-uns-quebrados/90 mmHg).

Noutro, numa lanchonete fast-food de sanduíches, comendo um sanduíche com hambúrguer de picanha, pego a caixinha dele e leio as informações nutricionais até chegar em:

  • Sódio – 2.713mg113% das necessidades diárias de uma dieta de 2.000KCal.

Sem contar a batatinha.

Foi então que me lembrei de Super Size Me.

Etiquetado como:,

“Cada um na sua, mas com nada em comum”

Publicado em Atualidades, Bem-estar, História por Rodrigo Santiago em 16/04/2008

A frase do título foi dita por mim em uma conversa com uma amiga, que está na faixa dos vinte anos de idade, e é uma clara alusão ao famoso slogan “cada um na sua, mas com alguma coisa em comum” das propagandas do cigarro Free. Foi um slogan muito perpetuado entre as pessoas na década de noventa, e até início do ano dois mil. Minha amiga não entendeu a alusão, pois não se lembrava de tais propagandas. Isso me fez pensar que a geração próxima ou abaixo de um quarto de século não teve ciência, por completo, do período de banimento do cigarro dos meios publicitários. Ou pegou o bonde andando ou já com ele no ponto final. Em um intervalo de menos de dez anos o cigarro foi de total liberdade até o completo banimento; televisão, patrocínios a eventos ou mesmo a esportistas, tudo proibido.

Assistindo às propagandas percebia-se claramente o público-alvo dos produtos, seja analisando as imagens, a temática ou a trilha sonora, entre outros elementos. O cigarro Hollywood, por exemplo, era voltado a uma juventude inquieta, ligada aos esportes radicais, ao rock’n roll e com sede de viver. O Free, ao jovem buscando firmar sua independência e individualidade, culto e refinado. O Marlboro voltado ao público masculino, mostrando a combinação de poder, virilidade e liberdade. O Carlton já era voltado a um público mais refinado e adulto. A lista segue longa. Nem é preciso conferir os números para saber que as companhias de cigarro faturavam faturam muito, pois tais marcas tinham uma excelente assessoria de marketing — e isso custava custa bastante. Com tantos recursos, não foi por acaso que estas peças publicitárias eram uma das melhores produzidas, e tornaram-se célebres, seja o cowboy da Marlboro, seja o sandboard nas dunas da Namíbia de Hollywood.

Na época estes comerciais nada mais eram do que comerciais muito bem feitos. Mas quem teve oportunidade de assisti-los no intervalo de um filme ou de uma novela, e contrasta com o presente, acaba sendo possuído por um certo saudosismo. Acredito que isso se dá com qualquer tipo de um comercial que marca uma época — “não esqueça da minha Caloi”. Muita gente hoje solta um ou outro bordão, ou faz alguma referência proveniente dos comerciais de cigarro. Tudo bem, isto pode ser levado até a outros produtos: daqui a dez anos o bordão “quer pagar quanto?” nada vai significar para uma pessoa de vinte anos de idade, além do sentido literal de frase. Mas me refiro especialmente às propagandas de cigarros pois nestes comerciais os publicitários buscavam causar mais impacto, criando um imaginário e ambientes alheios ao produto anunciado, vendendo a idéia de que o cigarro poderia proporcionar a sensação vivida no comercial. Criaram, também, vários slogans de efeito, que, isolados, não tem relação alguma com o produto, mas alguns deles transformaram-se em quase um sinônimo da marca anunciada:

  • “Alguns homens fazem o que outros apenas sonham”, Marlboro;
  • “Existe um lugar onde o homem é dono do seu próprio destino”, Marlboro;
  • “Me ame ou me odeie. Mais ou menos é que incomoda. Cada um na sua”, Free.

Abaixo, uma série de frases de uma campanha publicitária do cigarro Free, veiculada em impressos, voltadas ao jovem, enfatizando a atitude — reparem nas idades entre vírgulas :

  • “Adriana Recki, 27 anos, agitadora cultural: Eu sou um animal absolutamente emocional”;
  • “Mega-OM, 26 anos, multimídia: Eu sou a minha própria invenção”;
  • “Lara Pinheiro, coreógrafa: A melhor parte da minha vida é o improviso”;
  • “Carolina Overmeer, 27 anos, diretora de arte: Ninguém muda nada se não acreditar que pode”;
  • “Daniel Zanardi, 27 anos, artista plástico: Não quero passar pela vida sem um arranhão. Quero deixar minha marca”.

Abaixo há uma propaganda veiculada pelo Free, que exemplifica muito bem a questão.

E logo mais um vídeo com um comercial de Hollywood dos anos oitenta.

Aqui o protagonista é um carro de corrida extremo, e aqui é um grupo de jovens descendo uma montanha nevada com snow mobiles.

Referências e mais informações

Alguns links para vídeos e propagandas de cigarros

Artigo com um breve histórico das campanhas publicitárias de cigarros

A indústria do cigarro e a publicidade

Pesquisas com animais proibidas em Florianópolis

Publicado em Atualidades, Bem-estar por Rodrigo Santiago em 08/12/2007

Foi aprovado pela câmara de vereadores de Florianópolis um projeto de lei que proíbe pesquisas com animais no município. A iniciativa foi do vereador Deglaber Goulart, do PMDB, e, segundo o jornal Diário Catarinense, a medida entrará em vigor pois o prefeito que era-de-São-José-e-agora-é-de-Florianópolis Dário Berger, que tinha 15 dias para ou sancionar ou vetar a lei, não se manifestou, e, desta maneira, a lei foi automaticamente sancionada.

É lamentável que isto ocorra hoje em dia. Na minha opinião é um retrocesso gigantesco. O que me dá mais raiva são pessoas que entendem bulhufas de ciência experimental dando pitaco na questão. Uma professora do doutorado de Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina diz que

os protetores dos animais não pregam o fim da pesquisa científica sobre a saúde humana, mas o fim do uso de animais como objeto destas pesquisas. (Diário Catarinense).

Mas e aí, como é que faz isso? Será que eles preferem que os testes sejam realizados em seres humanos?

Questionado sobre se os cientistas da cidade poderiam continuar fazendo pesquisas com animais como moscas-de-fruta e vermes, ele disse que “acredita que sim”. “Não falo nada especificamente sobre moscas, estou falando de animais grandes”, afirmou. (Portal G1) . [grifo meu].

Jesus amado, ele tem a iniciativa do projeto de lei mas nem sabe ao certo sobre a quais animais ela se aplica? Eu hein!

Para o vereador, é possível dispensar o uso de animais em pesquisas. “Estamos no século XXI, já fomos e voltamos da Lua umas dez vezes [foram seis]. Isso é coisa da Idade Média”, afirma. (Portal G1). [grifo meu].

Pode ser implicância minha, mas um cidadão desta estirpe não está nem um pouco interessado em ciência. Primeiro porque fala da boca para fora, sem ter certeza de suas afirmações, segundo, faz uma relação estúpida, comparando a evolução da ciência com as idas à Lua. O que diabos tem uma coisa a ver com a outra!? Bom, vamos deixar de usar óculos, já que foram inventados na Idade Média, vamos queimar todos os livros, pois o formato de livro que conhecemos hoje foi desenvolvido na Idade Média. Como é que um cidadão desse naipe, que em poucas linhas consegue dizer tantas bobagens, consegue se eleger e aprovar projetos de lei?

O grande equívoco é que os desocupados de plantão colocam cientistas sérios, com anos de carreira, no mesmo patamar de Zé Rolhas que torturam animais pelo simples prazer.

Mello [Luiz Eugênio Mello, presidente da Federação de Sociedades de Biologia Experimental] afirma que nenhum pesquisador sente “prazer” em fazer testes em animais, mas que as alternativas são piores. “Se não pudermos testar os remédios em animais, vamos ter que testar em gente. E remédio não surge pronto. Eles têm uma série de efeitos colaterais e podem matar”. (Portal G1).

Sou completamente a favor de direitos “humanos” aos animais. Não teria cojones para realizar pesquisas com animais, mas sei que elas, por enquanto, são importantes. Já estive em um frigorífico onde eram feitos produtos derivados de porco, e no setor onde eles eram abatidos o negócio foi medonho: nunca tinha ouvido um animal — vários animais, na verdade — gritarem daquele jeito. Eles estavam relativamente longe do local de abate, mas já sabiam da morte certa, imagina o estresse.

Os “do contra” argumentam que há alternativas às pesquisas com animais mais eficientes, mais baratas e que levam menos tempo. Certo, então a indústria farmacêutica, os centros de pesquisa, as universidades são apenas sádicos cruéis que adoram perder dinheiro torturando animais. Corta essa, PETA, parem de falar disparates, ninguém gosta de jogar dinheiro fora.

Effective, affordable, and humane research methods include studies of human populations, volunteers, and patients [...]

Traduzindo: “Métodos eficientes, baratos e de pesquisa humana incluem estudo de populações humanas, voluntários e pacientes [...]“. É sério isso? Agora pergunta para eles se eles querem ser voluntários. Cut the crap!

Minha esperança é que seja aprovado um projeto de lei que regula o uso de cobaias em pesquisas, e, sendo uma lei federal, tornaria irrelevantes estas leis municipais absurdas e fruto de oportunistas de meia tijela.

Etiquetado como:, , ,