Um último beijo antes do último beijo
Quando assisti ao trailer de “Um beijo a mais” (The Last Kiss), filme estrelado pelo “Scrubs” (Zach Braff), pelo irmão do Ben Affleck (Casey Affleck), Tom Wilkinson, entre outros, fiquei com a impressão de que já o tinha visto há alguns anos. Mas o filme é relativamente novo (2006 e chegando só agora no Brasil), foi então que nos créditos do trailer vi que era baseado em um filme italiano, chamado aqui “O último beijo” (L’Ultimo Bacio), de 2001.
Assisti recentemente ao filme com o “Scrubs” e, apesar de ser um bom filme, as comparações são inevitáveis. O filme original é muito mais intenso, as atuações melhores, e o idioma italiano é um dos dois melhores idiomas para expressar discursos inflamados (o outro é o espanhol), deixando as cenas de discussão bem mais interessantes.
Não me lembro com detalhes do filme original, assisti-o em 2004 ou 2005, mas pelo que me lembro o roteiro é praticamente ipsis litteris. Na ocasião fiquei maravilhado pelo filme, uma dessas belas surpresas que a programação da madrugada pode nos proporcionar.
O filme “Um beijo a mais” está na programação do Telecine, e o “O último beijo” creio que deve haver em DVD, pois não está mais na programação dos canais HBO. O diretor do filme original, Gabriele Muccino (por que diabos os italianos cismam em colocar nomes de mulheres nos homens?) participa como produtor executivo do filme americano.
Clique em “mais” para assistir a duas cenas, uma do filme italiano e outra do americano. No youtube tem mais um monte. Depois de assistir à cena do filme italiano, assista a essa pagação de mico, hehehe.
Indiana Jones, Casino Royale e A intérprete
Final de semana cheio, finalmente fiz algo que costumava fazer há muito tempo e que estava com saudade, assistir a vários filmes, um atrás do outro. Entre filmes já vistos, inéditos, lançamentos, bons filmes e bombas, três filmes se destacaram para mim.
O primeiro — em ordem de destaque — foi “Indiana Jones e reino da caveira de cristal”. Estava um pouco ansioso para vê-lo, mas não esperava muito dele, apenas um filme divertido na saga do famoso “arqueólogo”. Longe da imagem do arqueólogo prostrado com a bunda para cima sob o sol, escavando a areia com um pincel de meia polegada para encontrar cacos de cerâmica.
O filme é bem divertido, e quem esperava algo mais do que entretenimento puro e simples deve ter ficado desapontado. O início do filme me lembrou os filmes de espionagem da guerra fria, e tem uma atmosfera similar a de “Indiana Jones e a última cruzada”; além de uma vilã com características peculiares, típico de tais filmes.
Não pude deixar de rir da referência ao arqueólogo Gordon Childe, um dos mais conceituados estudiosos da pré-história, num momento não usual. E há outra referência indireta ao mesmo arqueólogo, quando Jones cita as escavações à ilha de Skara Brae (que também é uma ilha nos jogos da série Ultima), pois Childe participou de uma escavação realizada nesta ilha. O filme se passa em 1957, ano em que Gordon Childe morreu. Pura curiosidade.
O que pode ter decepcionado alguns é que é um filme despretensioso, não tenta ser uma daquelas seqüências que pretendem resgatar o herói e colocá-lo num pedestal. Os elementos novos inseridos foram, a meu ver, bem explorados a ponto de não ficarem saturados. Há cenas bobas, claro, mas, nesse caso, servem para divertir ainda mais. Apesar da música tema ser usada como base para algumas trilhas de fundo, ela não fica enfadonha. E um erro muito comum em seqüências do tipo é saturar a imagem do herói ou de algum elemento característico do filme, querendo dar relevância maior do que realmente há. E não tive a impressão de ocorrer isto nesse filme.
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Às vésperas do lançamento do próximo filme do espião double O seven, previsto para este ano, acabei assistindo, por acaso, ao último filme da franquia, “Casino Royale”. Nunca consegui assistir a um James Bond do início ao fim, sempre os achei muito chatos. Já Casino Royale me prendeu do início ao fim. Achei um bom filme e Daniel Craig ficou muito bem caracterizado como Mr. Bond. O Pierce Brosnan me pareceu meio insosso. Depois dessa pretendo dar uma nova chance aos outros filmes da franquia, inclusive os com o Sean Connery e Roger Moore.
Oops, filme errado.
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No molde dos filmes de inteligência e ação, “A intérprete” é um filme bem feito, que não se apóia completamente na ação e que aposta nas reviravoltas do roteiro que sempre levam o espectador para um caminho diferente, até mesmo nos minutos finais do filme. Uma trama bem armada e que também prende a atenção. É muito bom poder terminar de assistir a um filme sem ficar com aquele sentimento de tempo perdido no final.
Um paralelo entre os três filmes é que eles tem espionagem no meio.
Au revoir.
Apocalypto e o fim da civilização maia
Mel Gibson mostra novamente como consegue o que quer em Hollywood. Depois de filmar “A paixão de Cristo” em aramaico, língua praticamente morta, ele filma “Apocalypto” utilizando o idioma falado pelos povos maias hoje em dia. O contexto histórico, aparentemente, não é o elemento principal do filme, pois a história principal é mais ou menos universal, que poderia se passar em qualquer época e em qualquer local, fazendo-se as adaptações necessárias.

O mais notável Maia
No entanto, a utilização de tal contexto é o que torna o filme interessante, pois ao narrar esta história universal, narra, também, o final da civilização maia; as guerras frequentes entre tribos e cidades estado; o desespero dos líderes para colheitas prósperas, através da cena dos sacrifícios seriais e a pilha de corpos, sugerindo que os sacrifícios eram numerosos; a edificação de mais construções, utilizando recursos que poderiam ser gastos em algo mais produtivo à civilização. Enfim, narra os últimos suspiros de uma civilização. A chegada das caravelas ao final do filme apenas conclui este ciclo, pois, com a conquista espanhola, a civilização maia, que já estava sob domínio asteca no século XVI, recebe seu ultimato.
A utilização da frase de autoria do historiador Will Durant no início do filme (“Uma grande civilização não pode ser conquistada por fora, antes de se destruir por dentro”) serve para ilustrar o parágrafo anterior, de que a civilização maia, antes de ser conquistada pelos espanhóis, já estava em declínio devido a estes fatores internos. É importante ressaltar que esta civilização entrou em decadência desde o final do século IX, quando ficou sob influência tolteca, e posteriormente sob influência asteca.
O filme recebeu críticas por mostrar uma civilização já decadente no século IX ainda “viva” no século XVI. Porém, não foi mero descuido, mas proposital. Percebo isso na cena do sacrifício, pois, a meu ver, a cena do sacrifício segue à risca as descrições de sacrifício praticada pelos astecas. E no século XVI, como já visto, a civilização maia estava sob influência asteca.

Sacrifício humano dos astecas
Outra crítica recebida pelo filme foi de mostrar os maias como um povo bárbaro e sanguinolento. A esta altura a patrulha de plantão esquece de mencionar o início do filme, quando a comunidade vivia em harmonia consigo e com a natureza; de que o filme segue o ponto de vista de um indivíduo capturado em uma batalha, logo, as cenas mostradas são relacionadas a isto; e também esquece de que o filme sugere que o eclipse já era conhecido do alto escalão, que trocava olhares de complicidade, enquanto a população foi privada desse conhecimento. A civilização maia é conhecida por ter tido um avançado conhecimento astronômico, mas é lógico que este conhecimento ficava retido na elite. A crítica, a meu entender, é baseada apenas no fato do diretor ser um conservador declarado. Caso fosse um filme dirigido por um diretor reconhecidamente progressista, ou, ainda, por um latino, estas críticas ou não existiriam ou seriam relativizadas. Ou queriam que o filme mostrasse os maias em traje de gala bebendo o chá das cinco?
É interessante observar como a escolha do idioma nos faz mergulhar muito mais facilmente naquele mundo, junto com os outros elementos — ambientação, figurino, etc — e, ao mesmo tempo, distancia-nos historicamente dele, como se tivesse sido filmado na época.
Portanto, o que inicialmente parecia ser segundo plano — o contexto histórico — é trazido para o primeiro plano, e o conflito do personagem principal fica apenas como uma desculpa para o diretor poder tratar desde contexto histórico, mas sob o ponto de vista do personagem. É um bom filme para estudantes de cinema e crítica entenderem que ao analisar um filme você não pode se ater apenas às técnicas de cinema, mas precisa se preocupar em ver, além dos subtextos, o contexto em que o filme foi feito.
Historiadores e professor universitários também podem utilizar o filme para, além de fazer uma discussão sobre as civilizações americanas e a conquista espanhola, discutir como utilizar o cinema na sala de aula, discutindo os acertos e erros do diretor acerca do contexto histórico.
Os anacronismos presentes no filme talvez sejam mais questões de Antropologia que de História, pois achei a reconstituição histórica bem verossímil, como as pinturas dos deuses ou as cabeças empaladas. No caso dos anacronismos, seriam mais questões como o de levar conceitos de comportamento da sociedade atual para a sociedade da época.
“A queda”: Hitler não era um robô

Bruno Ganz como Hitler
Virou lugar-comum sempre que se falar em nazismo, fascismo, Hitler ou qualquer outro regime totalitário ou líder totalitário, criticar, de preferência com diversos adjetivos pejorativos, tais movimentos. E os patrulheiros de plantão estão aí para garantir que isso ocorra. É claro que não se quer que eventos como os que ocorreram na segunda guerra mundial se repitam, mas muitas vezes as críticas ao regime parecem mecânicas, e, assim sendo, desprovidas de conteúdo. Vazias. O lobby anti-Hitler desde o final da segunda guerra até hoje é tão intenso que muitas pessoas não se sentem à vontade quando vêem alguma imagem dele, ou os termos usados para adjetivá-lo são “monstro”, “desprezível” entre outros. Mas Hitler não foi muito diferente do qualquer outro líder totalitário. Nem pior, nem melhor.
Normalmente há bastante resistência, sobretudo por parte dos vencedores, às tentativas de mostrar o ponto de vista dos vencidos, pois há um ditado famoso que diz que “a História é contada pelos vencedores”. Foi o que ocorreu a partir do lançamento do filme “A queda: as últimas horas de Hitler”, em 2004. Houve uma série de críticas ao filme, ou por “humanizar” a figura do ditador, ou por tentar mostrar o regime nazista como vítima, ou, ainda, por tentar passar a idéia de um “nazismo light”. [mais informações].
Não vi nada disso no filme.
Ele humaniza, sim, o ditador. Mas não do jeito como normalmente se caracteriza uma pessoa como humana: dotada de sentimentos nobres. Mas como um ser humano que pode ser vil, empedernido, cruél e dócil ao mesmo tempo, o filme humaniza o ditador neste sentido. Mas como o cinema — ou aquelas que fazem cinema — tende a ser maniqueísta — o que é bom vira excessivamente bom, e o mal excessivamente mal — é natural que surjam críticas quando um “vilão” da vida real é dotado não apenas de sentimentos rancorosos. O filme mostra um Hitler que tem a capacidade de amar e de ser dócil com os outros, mas, ao mesmo tempo, mostra os delírios do líder nos momentos finais, como também mostra sua crueldade e seu rancor para com os judeus. Ou seja, o filme humaniza sim a figura do ditador, mas jamais absolvendo-o ou tentando criar empatia com ele.
Se o regime nazista chegou nesse ponto foi com o apoio da população. Os judeus estavam crescendo economicamente na Alemanha, o que levou muitos acreditarem que a causa da economia estar em níveis tão ruins fossem os judeus. Isto, aliado com os ressentimentos da primeira guerra mundial, criou um ambiente promissor ao desenvolvimento de um regime totalitário e nacionalista, com apoio popular. Os estrangeiros e etnias consideradas inferiores foram perseguidas: judeus, ciganos, eslavos, comunistas, etc.
O filme dá umas pinceladas sobre isto, mostrando uma característica presente nos movimentos fascistas, nos quais os líderes são tidos como infalíveis, criando, assim, uma idolatria do povo para com eles. Uma característica típica do absolutismo. Um dos pontos mais importantes do filme para mim é quando mostra a demagogia do líder, que, por orgulho e narcisismo, prefere a morte à rendição, e assim abandona — suicidando — aqueles que o apoiaram, que o levaram ao poder e legitimaram suas ações, diante da derrota iminente.
Ou seja, o filme só sugere um “nazismo light” para aquelas que o vêem com olhos tortos e de maneira superficial, sem perceber suas nuances. Pena que o ator Bruno Ganz, interpréte do füher no filme, não levou prêmio algum por sua atuação, pois ele esteve magnífico.
O ano da elite e a tropa da miséria brasileira
Li o comentário abaixo neste post do blog da Revista de Cinema, que pergunta ao leitor se concorda com a indicação do filme “O ano em que meus pais saíram de férias” como possível candidato ao Oscar de melhor filme em lingua estrangeira:
É uma pena que a comissão tenha escolhido “O ano em que..” para representar o Brasil para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Não deixa de ser um bom filme, mas “Tropa de Elite” representaria muito melhor o nosso país pois fala do Brasil de hoje.
Esse é a típica mentalidade ridícula do brasileiro, achar que o passado não serve para nada e que o que passou, passou. Já era. Foi-se.
Nosso país foi palco de um governo militar ditatorial — que os militares, simpatizantes e paranóicos de plantão cismam em chamar de “revolução democrática” — que durou cerca de vinte anos. Este é o vigésimo-segundo ano desde o fim da ditadura, só há apenas dois anos que o período vivido sob a democracia superou o vivido sob a ditadura. Logo, dizer que algo que trate da ditadura não representa o “Brasil de hoje” é ser, no mínimo, leviano.
Estes vinte anos vividos sob a ditadura influenciaram fortemente o “Brasil de hoje”, tanto que a imprensa abusa do direito à liberdade de expressão, e, quando contrariada, evoca a censura do período ditatorial. Na minha opinião é oportunismo, mas um oportunismo montado em cima de uma ferida ainda não cicatrizada. Quantas famílias não foram desestruturadas diretamente devido à perseguição política? Quantas pessoas ainda sentem o reflexo daqueles dias hoje? O tema ainda está tão presente no “Brasil de hoje” que há, hoje em dia, quem receba indenizações referente aos crimes cometidos pelos agentes do regime militar. Aliás, cabe lembrar que a concessão das indenizações às vítimas do regime ditatorial é recente.
A própria situação do filme “Tropa de elite” é resultado da ditadura militar, já que o tráfico de drogas organizou-se durante os anos da ditadura. O Comando Vermelho teve sua origem dentro da penitenciária de Ilha Grande, para onde eram enviados os presos políticos, que em contato com os presos comuns, acabaram trocando experiências. Foi desta maneira que os presos comuns adquiriram conhecimentos de táticas de guerrilha e organização, usados depois para a formação de um grupo criminoso organizado e com grande alcance.
Portanto, é inegável que a ditadura militar influenciou o “Brasil de hoje”, logo, qualquer obra que trate deste período está, sim, falando do Brasil contemporâneo.
Mas… e daí se o filme não falasse do “Brasil de hoje”? Que problema haveria nisso? Filme bom é só aquele que “retrata a realidade”? Mas o que diabos é isso? Retratar a miséria e a desordem social? Quer dizer que só há miséria em nosso país? E, sabendo que há miséria, não há espaço para manifestação de algo mais, de outra realidade que não exatamente a miséria? Eu hein.
Qual será o filme brasileiro no Oscar 2008?
Foi publicado hoje no blog da Revista de Cinema que o filme brasileiro candidato à vaga de melhor filme estrageiro no Oscar 2008 será decidido amanhã. Entre os dezoito inscritos está “O ano em que meus pais saíram de férias“, dirigido por Cao Hamburger, o meu escolhido. Não assisti a nenhum dos outros filmes da lista, por falta, principalmente, de tempo e dinheiro. Mas digo que “O ano…” é meu escolhido por considerá-lo um dos melhores filmes brasileiros a que já assisti, e acho que tem chance de ser escolhido como um dos finalistas pela Academia pois tem muitas das características que ela gosta. Tenho quase certeza de que os jurados brasileiros escolherão um filme nos moldes daquilo que ela gosta, e nessa, mesmo não tendo assistido aos filmes da lista, sei que alguns não tem chance, como Três irmãos de sangue, já que não é do feitio da Academia “oscarizar” um documentário nessa categoria — nem em nenhuma outra, exceto na de melhor documentário.
Já é sabido que há um intenso lobby por trás de cada filme “em disputa” no Oscar, e que a Academia tem preferência por certos tipos de filmes, enquanto despreza outros. O Oscar é a premiação do cinema comercial de língua inglesa por excelência, não há espaço para o cinema experimental, exceto para aqueles que tenham sucesso comercial nos Estados Unidos. Os filmes premiados, além de terem grande sucesso, são todos bons ou até mesmo excelentes, muito bem feitos tecnicamente, não deixando nada a desejar como cinema. Agora, se o Oscar é uma premiação válida e yada yada yada, isso é uma outra conversa.
Sabendo do exposto no parágrafo anterior, o filme Tropa de elite será distribuído nos Estados Unidos pela The Weinstein Company, produtora dos irmãos Weinstein, os fundadores da Miramax, conhecidos como grandes lobbystas. “Cidade de Deus” também foi distribuído por eles nos EUA e teve quatro indicações — de melhor fotografia, edição, roteiro e direção — feito que nenhum filme brasileiro conseguiu até então. Logo, é outro importante candidato.
Para ver os filmes inscritos, os jurados e mais informações visite aqui ou aqui.
O resultado será divulgado amanhã, às 16h.
Update
O escolhido foi “O ano em que meus pais saíram de férias”.
Três irmãos de sangue
Quando uma sociedade deixa matar suas crianças, é porque começou o seu suicídio como sociedade.
Quando não as ama, é porque deixou de se reconhecer como humanidade.
Herbert de Souza
Ainda não assisti ao documentário “Três irmãos de sangue“, lançado recentemente, e provavelmente só o verei quando for lançado em DVD. O doc é sobre os irmãos Herbert de Souza, Henfil e Chico Mário, hemofílicos e que contraíram o vírus HIV em transfusões de sangue.
A impressão que o trailer passa é de não ter sido realizado um documentário burocrático e simplesmente biográfico sobre os três irmãos, mas relaciona-os com a situação brasileira do momento, como, por exemplo, a abertura política na década de 1980.
Agora fico apenas na expectativa de conseguir vê-lo em breve, torcendo para que seja lançado em algum cinema próximo. Abaixo o trailer.
Blindness e diários de produção
Recentemente soube que Fernando Meirelles — diretor de “Domésticas, o filme” (uma cena), “Cidade de Deus” e “O jardineiro fiel” (The Constant Gardener — está escrevendo um blog sobre a produção do filme Blindness, baseado no livro “Ensaio sobre a cegueira“, de autoria do escritor português José Saramago. Com a criação do blog o diretor permite ao leitor acompanhar não só o status da produção como, principalmente, como anda sua impressão sobre a realização do filme, já que ele não escreve de forma analítica e deixa transparecer muito daquilo que está em sua cabeça no momento da gravação das cenas e mesmo em outros momentos fora da gravação. Para se entender a magnitude da coisa, colo alguns trechos do blog, nas palavras do próprio Fernando no primeiro post, sobre como tudo começou:
O Ensaio Sobre a Cegueira foi publicado no Brasil em 97 ou 98. Li o livro quase numa sentada e por uma semana aquelas imagens e a idéia de que tudo está por um triz me fizeram companhia.
[...]
Num impulso, sem ter a mínima idéia de como adaptaria aquele romance, liguei para o Luis Schwarcz, o editor brasileiro do José Saramago, e pedi que ele consultasse o autor sobre seu interesse em vender os direitos para uma adaptação cinematográfica. A resposta veio rápida: nenhum interesse.
[...]
Em junho recebi um e-mail de um produtor canadense, que eu não conhecia, me perguntando se eu já havia lido José Saramago e se teria interesse em uma adaptação de um dos seus romances. Para ser simpático respondi: manda. Três dias depois, chegou em um envelope com um roteiro em inglês. Era Blindness, o Ensaio Sobre a Cegueira.
Devem existir milhares de diretores no mundo. O que fez com que aquele texto viesse cair justamente em minhas mãos? Essas coincidências são assustadoras.
É difícil não se identificar com o que ele escreve, com a sinceridade de suas palavras.
Quando um jornalista me perguntou, durante o Festival de Toronto, como seria o filme, me dei conta de que não tinha nada muito sólido para responder. Menti que não contaria para não estragar a surpresa.
Do Saramago só li A caverna, gostei bastante, apesar de ter demorado algum tempo para lê-lo, já que foi na época em que a faculdade estava mais puxada, então tinha outros textos e livros para ler. Espero bastante deste filme, e espero que Meirelles não siga o livro à risca — apesar do roteiro não ser de sua autoria, embora ele irá alterar alguma coisa. Caso não siga o livro à risca prevejo inúmeras críticas contra o filme por não ser “fiel” ao livro. Há pessoas que não entendem que cinema e literatura são duas artes distintas, com linguagens diferentes. Curto e grosso: o cerne do cinema é a imagem em movimento, e o da literatura, a palavra, logo, uma história contada através de palavras tem de ser modificada quando contada de outra maneira. Mas isso é conversa para outro post.
* * *
Ainda no assunto sobre diários de produção, indico outro blog, o do filme Um romance de geração, longa dirigido por David França Mendes, roteirista de O caminho das nuvens (trailer), que tem tudo para ser um filme sensacional.
É isso aí, au revoir.
Le fantomé de la liberté
Remexendo meus trabalhos de faculdade me deparei com um texto em que fiz uma pequena análise do filme “O fantasma da liberdade”, dirigido por Luis Buñuel e escrito por ele e por Jean-Claude Carrière. Foi o penúltimo filme dele, lançado em 1974. O filme é estruturado em forma de pequenas esquetes que, embora desconexas umas das outras, juntas formam uma narrativa coerente e não convencional, já que o filme não possui uma trama. Todas as esquetes estão intimamente ligadas através da mensagem que Buñuel passa. Ele mostra como estamos à mercê das convenções sociais e dos valores da sociedade na qual vivemos. Mais do que fazer uma crítica a estas convenções pré-estabelecidas da sociedade, Buñuel critica ferozmente os propagadores destes valores, a burguesia e a Igreja Católica, e, ainda, a cegueira com a qual nos apegamos a estas convenções. Este filme nos permite enxergar estas convenções sociais como algo historicamente construído e não como algo transcendental.
Uma das técnicas utilizada por Buñuel para demonstrar seu ponto de vista é a inversão de valores. O maior exemplo é a insólita cena do “jantar”, na qual uma família tipicamente burguesa — a burguesia era, como já mencionei, um dos principais alvos das críticas de Buñuel — senta-se ao redor da mesa, mas ao invés de sentarem-se em cadeiras, sentam-se em vasos sanitários e fazem ali mesmo, coletivamente, suas necessidades fisiológicas. O contraponto da cena se dá quando um dos presentes pede licença e vai ao “banheiro”, pega um prato de comida e, recluso, se alimenta. A sociedade convencionou o que é privado e o que é público, o que é certo e o que é errado. Nada contra, desde que não tentem me convencer de que as convenções são transcendentais e imutáveis. Da mesma forma como foram construídas, podem muito bem ser dissolvidas. O pior de tudo é que muita gente não se toca disso e passa a vida inteira sem percebê-las. Quando questionado limita-se a responder “sempre foi assim”.
A maioria das pessoas está condicionada a não refletir sobre as coisas que se passam em seu cotidiano, e dessa maneira vamos cada vez mais rápido em direção ao barranco. Não gosto muito de fazer análises dos significados dos títulos, mas o título desse filme de Buñuel é claro: o “fantasma da liberdade” é a crença cega nestes valores pré-estabelecidos, pois nos limitam e nos condicionam a uma vida que não sabemos se é a melhor para nós. A liberdade só é plena — ou só há liberdade —, segundo Buñuel, quando nos desprendemos destes valores e deveres que aprisionam a alma humana.
Glauber Rocha
Procurando algum material do cineasta bahiano Glauber Rocha no YouTube, encontrei dois vídeos dele: em um ele comenta sobre teatro e literatura no Brasil, e no outro, cinema brasileiro. Os vídeos contém pequenas reflexões extremamente pertinentes dele sobre estes temas, e que ainda fazem sentido no contexto contemporâneo brasileiro (principalmente quando fala sobre cinema).
Sobre teatro e literatura no Brasil.
Sobre cinema brasileiro.
Do Glauber assisti apenas “Barravento” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Comecei a assistir a “Terra em transe”, mas por problemas na fita asssiti apenas durante quinze minutos. A filmografia do Glauber Rocha é indispensável a quem queira se debruçar sobre o cinema no Brasil, seja falando sobre ou seja fazendo.
Abaixo coloco o trecho final do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Foi uma das poucas coisas do Glauber que consegui encontrar no YouTube. Quem não assistiu ainda e não quer saber o final, pode assistir tranqüilamente aos primeiros três minutos, pois não acontece nada de revelador.
Aqui tem um trecho do filme “Terra em transe”.
Em breve pretendo escrever algo sobre a decepção que os cineastas do Cinema Novo tiveram com a sociedade brasileira após do Golpe de 64, já que a maior parte da população permaneceu indiferente ao golpe.
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